Como precisávamos desocupar a arapuca,
tirávamos a codorniz morta e a colocávamos de lado.
E, de repente, ela voava!
A codorniz não tinha morrido coisa nenhuma,
era um truque!

Antônio Bispo dos Santos

Feijoada. Pimentinha e bastante paio. Não tomei café hoje. O pombo voou. Seu Jerô quem bateu o pé. Mas ó, cuidado para não pisar nele. Ficou dizendo que a gente não sabe quem pode ser. Você tá com isso agora, de tudo achar sagrado, reencarnado. Tá precisando ir no terreiro, seu Jerô. Depois fica esquisito aí no balcão. Tá bebendo muito rabo de galo, não? Mas, é. E se for o Moacir? Não parece. Traz mais torresmo? Levo, tem o jeito dele. Aquele que ficava sentado o dia todo na cerveja. Virou nosso amigo. Trabalhador. Lembrou? Morreu mês passado. Acharam ele em casa sentado no sofá sozinho. E os filhos? Moram longe. Começou a feder e entraram. Ele ficava sempre aqui. Falta dele. Todo dia. Fazer o quê? Sinto. Ou o outro, que virava a pimenta toda na feijoada. O Juranei. Sabe não? Ele vinha com a mulher toda quarta e sábado também. Sentava na mesa mais para trás. E começou a chamar a atenção dos outros. Quando pedia pimenta, a gente já ria. Começa a caçoar quieto para não deixar ele sem graça. Isso mesmo! Virava tudo. Abria o frasco de pimenta e despejava na comida. Mais que azeite em salada. Não abria pelo bico. Ia a bisnaga inteira. Ele comia pimenta com feijoada. Eu falo para você! Via. Cobrar adicional de pimenta antes. Porção de pimenta. Não fala essas besteiras! Bate três vezes na madeira. Botar na conta. Nosso amigo também. Ele morreu, Seu Jerô. Deixa disso! Mais de ano, já. Mas pode ser ele ali. Onde? No canto, perto do seu pé. Você não vê. É ele sim. Igualzinho. Pretinho da cabeça branca. Chega! Preciso comer. Este pombo vai cagar na minha feijoada. Parece também aquele outro. O véio, o Teimosinho. A mulher dele buscava. Ele saia no rabo da gata, trançando as pernas e agarrado nela. E dali um pouco, voltava de novo. Ó, lá! O pombo voltando. Sai fora! E ele é estiloso. Ó como anda? Peito estufado. Só pode ser o Pimenta, Jerô. O Teimosinho não tinha essa elegância. Falava alto. Babava. Então é o Pimenteiro. Voou. Ó. Voltando. Porra, Jerô, ele cagou na minha cabeça. Chuta. Foi para o banheiro. Trac-trac-trac. Fechou a porta. Trancada. Foi mijar o pombo? Tá apertado de cerveja. É o Teimosinho. Bate-bate. Tem alguém aí? Não estou gostando. Vou embora. Não entro. Está abrindo. Trec-truz. 


Capa de Rabada, livro de Alessandro Araujo.
Capa de Rabada, livro de Alessandro Araujo.

Alessandro Araujo é autor de Rabada (2024) e Longe de todas aquelas nuvens (2020). É colaborador dos jornais Rascunho e Le Monde Diplomatique Brasil, da revista Philos e da editora Selvageria. É especialista em Língua Portuguesa e Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie.

A pintura que acompanha o texto é de autoria da pintora Djanira.

 

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